4# ELEIES 29.10.14

     4#1 OS 10 ATAQUES QUE ENVENENARAM A CAMPANHA
     4#2 EXCELENTSSIMO DONO DA DEMOCRACIA
     4#3 UM AJUDA O OUTRO

4#1 OS 10 ATAQUES QUE ENVENENARAM A CAMPANHA
O PT distorceu fatos, falsificou a histria e manipulou eleitoralmente a divulgao de informaes, jogando o nvel da disputa na lama.
ANA LUIZA DALTRO

     A campanha presidencial de 2014 ficar marcada na histria poltica brasileira como aquela em que o grupo no governo usou a retrica e os mtodos mais sujos para desqualificar seus oponentes. As armas de destruio do PT comearam a ser testadas em Marina Silva, a candidata do PSB, que tomou a dianteira nas pesquisas depois da morte trgica do governador Eduardo Campos. Disse Marina: "Vocs no fazem ideia do que essas pessoas fizeram comigo. No bastou inventar a mentira de que sou homofbica, elas espalharam a calnia de que meus seguranas espancaram at a morte um homossexual que tentou se aproximar de mim". A frgil, conciliadora e moderada Marina foi retalhada pela mquina de difamao petista e remontada na forma de um monstro moral, perigo para o Brasil e o mundo, o equivalente na poltica  epidemia de ebola. 
     Marina ficou para trs e o senador mineiro Acio Neves saiu na frente nas primeiras pesquisas do segundo turno. Talvez o mais apto gestor de sua gerao, que deixou o governo de Minas Gerais com 92% de aprovao popular, Acio passou a ser transformado aos olhos dos eleitores em "espancador de mulheres", "psicopata", "bbado", "drogado", "nazista", "cafajeste"  a mais recente encarnao de uma linhagem de drages-de-komodo devoradores de pobres, maldio que j havia cado sobre o Brasil na figura de Fernando Henrique Cardoso. FHC, que debelou uma inflao anual de mais de 900%, foi vendido na propaganda petista como tolerante com a inflao. 
     Na ausncia de limites morais para agredir, a campanha petista de 2014 foi a perfeita negao do que o partido j representou para o Brasil. Nas pginas a seguir, esto dez ataques  verdade e ao bom-senso que envenenaram a campanha. 

1- "A crise vem de fora" Desculpa constante tanto no discurso oficial do governo Dilma Rousseff quanto nas defesas que a presidente faz de sua poltica econmica, como forma de justificar a recesso tcnica no Brasil. Entretanto, o crescimento brasileiro durante o governo Dilma ser, na mdia, 2 pontos percentuais menor do que o apresentado pela Amrica Latina, que enfrentou as mesmas crises externas que o Brasil. 

2- "A independncia do Banco Central significa menos comida no prato do brasileiro" Disse Dilma: "Um Banco Central que no tem como meta o mximo emprego tira, sim (comida da mesa). Tira comida e perspectiva da vida das pessoas". A incompetncia de um Banco Central pode produzir inflao  e esta, sim, tira comida da mesa dos brasileiros mais pobres. E os BCs so to mais incompetentes quanto mais submetidos ao amadorismo econmico de um presidente. Tornar a instituio formalmente independente a deixa mais apta a combater a inflao. 

3- "Reduzir a inflao para 3% ao ano implica ver o desemprego pular de 5% para 15%, e 25% de juros na taxa Selic. Ou seja: arrocho" Assim falou Dilma no debate da TV Record, no dia 19: "Para ter 3% de inflao, o  senhor (Acio) vai triplicar o desemprego, vai elevar a taxa de juros a 25%, porque esse  o receiturio". A equao que permitiu a Dilma chegar a tal concluso s se resolve no universo dos nmeros imaginrios. No mundo real ela no fecha. Chile e Colmbia vm crescendo mais do que o Brasil e com menos inflao. O arrocho salarial no Brasil j est ocorrendo, com a perda 


do poder de compra dos salrios, como reflexo da inflao mais alta. 

4- "A oposio descia acabar com os reajustes do salrio mnimo" Em discurso de campanha feito em Salvador no dia 9 de outubro, Dilma citou Armnio Fraga, ex-presidente do BC e eventual ministro da Fazenda em caso de vitria de Acio: "Ele no gosta do salrio mnimo. Ele acha que no Brasil, para resolver os problemas, eles tm de reduzir o salrio mnimo. Isso  um escndalo", disse a presidente. S no gosta de salrio mnimo quem o recebe e no tem possibilidade de melhorar de vida. Acio se comprometeu a manter a poltica de reajuste de salrio mnimo e a criar oportunidades para que as pessoas possam ganhar bem mais que esse piso salarial. 

5- "Acio votou contra o reajuste do mnimo" A campanha governista tem afirmado que o senador Acio Neves votou contra o reajuste do salrio mnimo proposto pela presidente Dilma em sesso no Senado de fevereiro de 2011, e que na poca elevou o piso a 545 reais. Acio votou contra a proposta governista, mas por defender um aumento maior, que teria levado o salrio mnimo para 600 reais. 

6- "O governo FHC quebrou o Brasil trs vezes" Em agosto, durante debate na TV Bandeirantes, Dilma afirmou que o governo do PSDB quebrou o Brasil trs vezes. Ela tambm disse no dia 5 de outubro que o Brasil no queria de volta um governo que "se ajoelhou" ao Fundo Monetrio Internacional (FMI). A ltima ocasio em que o Brasil deixou de pagar sua dvida externa foi em fevereiro de 1987, durante o governo Jos Sarney. Nos dois mandatos de FHC, o Brasil pediu trs emprstimos ao FMI, o que  bastante diferente de quebrar. O terceiro foi feito em 2002, entre outras coisas, por causa da crise desencadeada pela possibilidade da chegada de Lula ao poder. O FMI contribuiu para dar mais tranquilidade aos investidores no incio do governo Lula. 

7- "A inflao durante os anos FHC foi maior do que hoje" Disse Dilma: "Se vocs compararem os trs primeiros anos do governo Fernando Henrique Cardoso, a inflao chegou a 12,4%. Nos trs primeiros anos do governo do presidente Lula, ela baixou para 7,2%. E nos meus trs primeiros anos eu garanti que ela ficasse em 7,08%". Em nmeros absolutos a afirmao est correta, mas como representao da realidade trata-se de uma mentira infame que equivale a dizer que algum cresceu 20 centmetros entre o quinto e o dcimo ano de vida, mas diminuiu de tamanho entre o 80 e o 90 aniversrio. Descrever assim o papel de FHC  uma falsificao. Ele j assegurou seu lugar na histria do Brasil como o presidente que acabou com uma inflao de mais de 900% ao ano e, assim, inseriu o pas no grupo de naes viveis do planeta. 

8- "Os tucanos plantam inflao para colher juros" Foi isso que disse Dilma durante o debate promovido no ltimo dia 19 pela TV Record. A acusao  de extraordinria perfdia, como se algum pudesse querer ser presidente da Repblica para fazer inflao  justamente o que est sobrando no Brasil de Dilma. O IPCA em setembro chegou a 6,75%. Isso apesar do represamento dos reajustes de combustveis e energia. 

9- "O PSDB vai dar o pr-sal para as empresas estrangeiras" No debate da TV Record realizado no ltimo dia 19, Dilma lembrou a ideia de mudana do nome da empresa para Petrobrax durante o governo Fernando Henrique, com o objetivo de mostrar como o PSDB teria uma estratgia "entreguista". Em dia 16 de setembro, o site Muda Mais, do PT, insinuou que a candidata do PSB venderia a Petrobras a empresas estrangeiras. Lula e Dilma j deram a Petrobras aos corruptos da base do governo. E, portanto, no h muito que vender. 

10- "O PSDB, se chegar ao poder, vai acabar com programas sociais como o Bolsa Famlia e o Minha Casa Minha Vida" Com essa mentira tantas vezes desmentida pela campanha dos tucanos, militantes do PT vm alimentando o pnico entre os milhes de pessoas que dependem desses programas sociais. Nem o Bolsa Famlia nem o Minha Casa Minha Vida acabaro se Acio vencer as eleies. Ele j afirmou em diversas ocasies que pretende aprimorar e, se preciso, at ampliar o Bolsa Famlia. 

O CONTROLE DA INFLAO
Com o Plano Real, consolidado no governo Fernando Henrique, o Brasil deu fim  hiperinflao. O governo Lula perseverou no combate  alta nos preos, mas, com Dilma, o ndice tem ficado seguidamente acima da meta oficial
1980 99,3%
1985 242,2%
1986 79,7% lanamento do Plano Cruzado 28/2/1986
1987 363,4% Plano Bresser 16/6/1987
1989 1972% Plano Vero 16/1/1989
1990 1621% Plano Collor 16/3/1990
1991 472,7% Plano Collor II 31/1/1991
1993 2477,2%
1994 916,5% Lanamento do Real 1/7/1994

Fernando Henrique Cardoso
1996 22,4%
2002 12,5%

Lula
1004 at 2010 12,5%

Dilma 
2011 6,5%
2012 5,8%
2013 5,9%
2014 6,7% (12 meses at setembro
Meta oficial 4,5%


4#2 EXCELENTSSIMO DONO DA DEMOCRACIA
Numa sesso inesquecvel, o Tribunal Superior Eleitoral passa a zelar pela "qualidade do debate poltico", como se candidatos e eleitores fossem uma cfila de estpidos.
ANDR PETRY

     No houve aviso prvio, nem sinal de alerta. A coisa aconteceu meio de repente, logo depois que o ministro Admar Gonzaga entrou no plenrio do Tribunal Superior Eleitoral, em Braslia. Cumprindo a rotina e jurisprudncia do tribunal, Gonzaga avisou que no atenderia ao pedido da coligao de Acio Neves. O tucano queria que Dilma Rousseff fosse proibida de divulgar no horrio eleitoral uma pea publicitria na qual a ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais Eneida da Costa acusava Acio de abusar de seu poder como governador e perseguir jornalistas que publicavam notcias negativas sobre seu governo. 
     Era uma deciso simples. Afinal, denncias e crticas vinham fazendo parte da campanha presidencial, sem que o tribunal se intrometesse no assunto. Mas o ministro Jos Dias Toffoli, presidente do TSE, tomou a palavra e virou tudo. Comeou dizendo que, na sua opinio, era preciso repensar o modo como as candidaturas vinham usando o horrio eleitoral no rdio e na TV. Depois de 48 minutos de debate, Toffoli, seguido por trs ministros, suspendeu a propaganda do PT e deu a guinada: mudou o uso do horrio eleitoral, faltando dez dias para a eleio. 
     Em vrias intervenes, Toffoli reclamou do "baixo nvel" da campanha e dos ataques pessoais entre os candidatos, e insistiu que o horrio eleitoral deveria ser "propositivo, programtico". Acabou externando sua doutrina eleitoral, que pode ser resumida assim: sem a tutela do TSE, os candidatos s trocaro xingamentos como num "baile do risca-faca", e os eleitores nunca tero acesso ao que  "pedaggico, civilizado, educativo". Talvez cada eleitor e cada candidato tenham opinio diferente sobre quem agride quem, ou sobre o que  pedaggico e civilizado, mas a questo central  outra: ser misso do TSE zelar pela "qualidade do debate poltico" numa campanha? 
     Um trabalho recente publicado pelo Idea, a sigla em ingls do instituto que estuda sistemas eleitorais, mostra que cada pas tem um modelo distinto. Mesmo naes com a mesma tradio jurdica, como Estados Unidos e Inglaterra, ou Espanha e Brasil, adotam sistemas com enormes diferenas. Em alguns casos, aparecem semelhanas em pases culturalmente distantes, como Etipia e Inglaterra, ou Palestina e Uruguai. Mas nenhum desses sistemas, em pas nenhum,  concebido de modo que um tribunal  ou um rgo qualquer do Judicirio  tenha o poder de disciplinar o que os candidatos podem ou no dizer, seja verdade ou mentira, seja crtica poltica ou acusao pessoal. 
     O humor do eleitor  permanentemente monitorado pelas campanhas, que reagem ao menor sinal de um passo em falso. Se um candidato exagera, logo fica sabendo e recua. No  preciso tribunal para isso. Segundo pesquisa do Datafolha divulgada na quarta-feira, 71% dos eleitores discordam do tom beligerante entre Dilma e Acio. Isso mostra que, ao contrrio do que supe o TSE, o eleitor no precisa da tutela estatal: ele observa, entende o que observa e forma opinio. Se as campanhas mantm o tom belicoso, apesar da insatisfao do eleitor, fazem-no por seu prprio risco. Acusao pessoal pode ser til  e revelar mais sobre o acusador do que sobre o prprio acusado. 
     No site do TSE, pode-se acessar o vdeo com os 48 minutos da sesso inesquecvel. Com exceo das ministras Maria Thereza Moura e Luciana Lssio, os demais magistrados comportam-se como senhores da democracia. Toffoli, o mais empolgado, despeja uma srie de reprimendas  democracia brasileira. Reclama da publicidade nos programas ("as pirotecnias") e chama a ateno dos colegas para o que lhe parece falha grave: "Vejam bem, h programas a em que aparecem mais artistas do que candidato". Protesta contra denncias, talvez inverdicas, apresentadas por cidados comuns ("que nem filiados so!") e de notcias veiculadas na imprensa que podem ser mentirosas ("porque jornal tem para todo gosto"). O ministro Gilmar Mendes apoia Toffoli, mas seus seguidores mais animados so o corregedor-geral Joo Otvio de Noronha e o ministro Luiz Fux, que aproveitam para dar lies sobre o que  campanha poltica e como deve funcionar uma democracia. 
     Obedecidas as restries de Toffoli e colegas, acabariam as campanhas presidenciais na democracia mais slida, mais antiga e mais prspera do mundo. Nos Estados Unidos, desde os anos 60, quando comeou o hbito de contratar agncias de publicidade, produziram-se os anncios mais icnicos de agresso poltica de que se tem notcia. At dentro de um mesmo partido as disputas acirradas para a escolha de um candidato costumam registrar temperaturas altssimas, com anncios contendo violentos ataques pessoais. 
     Na quarta-feira, Toffoli conseguiu o que pretendia. As campanhas de Dilma e Acio fizeram um acordo, suspenderam a veiculao de peas negativas e renunciaram s aes que mantinham no tribunal. No tinham outro caminho a no ser seguir a nova jurisprudncia do TSE. Como afirmou um editorial publicado pelo jornal Folha de S.Paulo: "Existem abusos por parte dos candidatos ou de alguns militantes, sem dvida, mas nenhum deles  mais grave do que a interferncia excessiva dos poderes do Estado". 

MINISTRO DIAS TOFFOLI
Presidente do TSE

"A vamos assistir ao baile do risca-faca. Ns no vamos assistir a uma campanha presidencial." - Ao perorar sobre os candidatos que, deixados  prpria sorte, sem a tutela estatal, s saberiam ofender-se uns aos outros. 

"Eles esto disputando a Presidncia da Repblica, mas no ntimo, no ntimo, ns sabemos que eles se respeitam. Isso  um jogo de disputa de voto, e no  pedaggico, no  civilizado, no  educativo para o povo brasileiro." - Ao lecionar sobre as limitaes intelectuais e cognitivas do povo brasileiro, que no deveria ser exposto  crueza de "um jogo de disputa de voto". 

"Tem que acabar com esse negcio de aparecer gente estranha, de aparecer jornal, de aparecer revista nos programas eleitorais." - Ao decretar que a presena de cidados comuns e o uso de notcias da imprensa nos programas eleitorais so um estorvo na cena poltica .

"No sei se  o caso de voltar ao programa ao vivo, mas de reformatar isso e parar com as pirotecnias." - Ao invectivar contra os recursos publicitrios no horrio eleitoral, que talvez devesse voltar a ser como era quando saiu o Cdigo Eleitoral de 1965, na ditadura militar. 

"A jurisprudncia do TSE,  fato e eu disse, foi permissiva no passado." - Ao sentenciar que o Tribunal Superior Eleitora!, em eleies anteriores, no se comportou como um censor  altura 

JOO OTVIO DE NORONHA, corregedor-geral do TSE
" preciso entender que a campanha poltica, que o horrio eleitoral no  feito para ataques pessoais, mas sim para apresentao de programas de governo." - Ao explicar para o distinto pblico, incluindo eleitores e candidatos, o que  uma campanha poltica e como deve ser feita.

LUIZ FUX, ministro do TSE
"Como  que ela (a Justia Eleitoral) quer que esse jogo seja jogado, esse jogo democrtico? Vai ser assim, com acusaes, verses e verdades ou no?" - Ao externar sua convico de que cabe ao tribunal eleitoral dar lies sobre como a democracia deve ser praticada.


4#3 UM AJUDA O OUTRO
A extenso do poder e da crueldade do chefo do crime com quem o governo do Amazonas firmou um pacto por votos  exposta em gravao revelada por VEJA.
LESLIE LEITO

     O governador do Amazonas, Jos Melo (Prs), candidato  reeleio, entrou na reta final para o segundo turno aliviado. Abrira uma vantagem de 6 pontos em relao a seu adversrio, Eduardo Braga (PMDB), depois de penar com uma diferena de 2000 votos contra si na primeira votao. Agora, tem-se uma ideia de onde reside pelo menos uma parte de sua fora eleitoral: no apoio certo de Jos Roberto Fernandes Barbosa, chefo do trfico em toda a Regio Norte do pas. O acordo esprio entre governador e bandido foi selado em uma reunio dentro da cadeia onde Barbosa est preso, na zona rural de Manaus. Deixou de ser secreto, tirando Melo da zona de conforto, no domingo 19, quando VEJA teve acesso a uma gravao da conversa, travada na sala do diretor da priso, da qual divulgou trechos em seu site. "Eu acho que de voto ele vai ter de ns mais de 100.000", gaba-se o traficante. Em troca, quer que o governador "no mexa com ns". "Ningum vai mexer com vocs, no", promete o major Carliomar Brando, subsecretrio de Justia. O emissrio do governo acabou demitido. Melo, alegando manipulao dos udios, deflagrou uma guerra de liminares tentando banir as gravaes dos programas eleitorais. E o Brasil foi apresentado a um cacique do crime nacional, responsvel por abastecer de droga os estados do Acre, Piau, Maranho, Par e Cear, alm do prprio Amazonas. 
     Preso desde 2009, Z Roberto da Compensa (seu bairro de origem, na Zona Oeste de Manaus), tambm chamado de Doido, 41 anos,  o elo mais forte da conexo com narcotraficantes do Peru e da Colmbia na regio, onde derrama toneladas de cocana. Tambm  mandante de crimes brbaros no estado e comanda com mo de ferro a bandidagem local  vrias menes a esses dois destaques da sua carreira criminosa constam da gravao obtida por VEJA (veja o quadro). Esteve trancafiado em dois presdios de segurana mxima, Porto Velho e Catanduvas, mas em maro passado o governo amazonense o aceitou de volta no muito mais brando sistema do Complexo Penitencirio Ansio Jobim (Compaj), na zona rural de Manaus, hoje transformado em Q.G. do marginal.  de l que Z Roberto, lder da faco Famlia do Norte (FDN), dita regras, negocia drogas e executa desafetos. "Quem comanda aqui  ns", afirma a certa altura da gravao. 
     Temido pela crueldade e ousadia, Z Roberto tem cravado em seu currculo de selvagerias um episdio ocorrido quando ainda estava em Catanduvas, no interior do Paran, em 2013. De l, decidiu executar dois comparsas presos em Manaus, a 3700 quilmetros de distncia, que haviam se bandeado para uma clula amazonense do Primeiro Comando da Capital (PCC) paulista. Orquestrou uma fuga e conseguiu tirar a dupla "traidora" da cadeia s para mat-la; dias depois, os corpos esquartejados foram encontrados dentro de duas malas no Rio Negro. Durante a conversa gravada, que em determinados momentos mais parece uma palestra, Z Roberto diz que, na sua lei, traidores e estupradores esto condenados ao "sal",  sinnimo de morte nos seus domnios: "Falei para o diretor. Pegar esses caras  sal. Entrou na cadeia  sal". 
     Alm do domnio do trfico (s no Amazonas, movimenta meia tonelada de pasta-base de cocana todo ms) e do rol de homicdios, o criminoso se imps pelo tamanho e capilaridade da rede de contatos que arregimentou e pelo sofisticado esquema de lavagem de dinheiro. A Polcia Civil do Par j identificou suas digitais em investimentos pesados em concessionrias de veculos e imveis no estado. Foi dono ainda de um time de futebol, o Manaus Compenso Esporte Clube, e at de uma banda de forr. Na priso de Manaus, Z Roberto e seus asseclas dispem de diversas regalias: visitas ntimas nas celas, nibus especiais para transporte de parentes, represso interna zero e vigilncia praticamente inexistente. "Se eu quisesse fugir ali, eu pulava", zomba ele a certa altura. Quando quer, libera cmplices: em julho, seu brao-direito, Gelson Lima Carnaba, escapou com facilidade. Z Roberto, no entanto, no se d ao trabalho de fugir, muito confortvel que est em seu escritrio do crime. Afinal, tem garantias de que l ningum vai mexer com ele. Palavra do emissrio do governador. 

QUEM MANDA
Nas gravaes obtidas por VEJA, o traficante Z Roberto fala como "dono" do Amazonas.
"J falei, quem comanda aqui  ns. A disciplina da cadeia, do estado, aqui  ns!" 
"O Melo vai ter mais votos de ns do que das outras pessoas que ele vai comprar por a." 
"Aquelas imundcies que se dizem PCC so um bando de vermes. Vou matar tudinho." 


